O brasileiro valoriza a educação?

Por Stephanie Kim Abe, via.

Seminário discute qual o valor que o brasileiro dá para o conhecimento e qual a sua percepção sobre o sistema educacional do país

Melhores salários para os professores significa melhor educação? Será que são os professores que são ruins ou os alunos que não aprendem mesmo? Ou são os brasileiros que simplesmente não se importam com o tema?

Essas foram algumas das perguntas feitas por uma pesquisa realizada em 2013 em cinco capitais brasileiras (Curitiba, Manaus, Recife, Rio de Janeiro, São Paulo, e) sobre a percepção das pessoas a respeito do sistema educacional do País. O estudo, feito pela Globo Educação em parceria com a Central Única das Favelas (CUFA), buscou entender se essas questões são mitos ou fatos da realidade brasileira.

Os resultados foram apresentados em um seminário ocorrido em São Paulo em dezembro de 2013, com a participação de Fernando Abrucio, cientista político, professor da FGV-SP, Cleuza Repulho, presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação, Luiz Felipe Pondé, filósofo, escritor e ensaísta, e Ricardo Henriques, economista e superintendente executivo do Instituto Unibanco. A íntegra do encontro está disponível aqui.

Veja qual foi a opinião da população e dos especialistas a respeito de algumas questões:

1. O brasileiro dá valor à educação?

A percepção geral é que com os pais não incentivam a educação, isso contribui para que os filhos não se sintam estimulados a irem para a escola. Os especialistas levam a questão mais além: grande parte da população brasileira não tem parâmetros para avaliar a educação atual, já que fazem parte da geração que não teve muito acesso à escola. “Quantas famílias têm o seu primeiro filho ou primeiro neto na educação superior?”, questionou Cleuza Repulho, presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação e secretária municipal de Educação de São Bernardo do Campo.

“Pessoas com baixa escolaridade estão buscando melhorias com a educação das novas gerações”, defendeu Ricardo Henriques, economista e superintendente executivo do Instituto Unibanco. Ainda que essa nova classe C esteja colocando o filho na escola, “pais e avós não têm paradigmas para ver a qualidade da educação que é dada aos seus filhos”, complementa Fernando Abrucio, cientista político e professor da FGV-SP.

2. Se os professores receberem melhores salários, a educação vai melhorar?

O panorama dos professores na realidade educacional brasileira não deve ser reduzido apenas à questão salarial. Essa é a percepção tanto da população entrevistada quanto dos especialistas. Condições estruturais das salas de aula, incentivo à formação continuada e carga horária compatível com a remuneração foram alguns dos pontos levantados que também merecem atenção para que a profissão seja realmente valorizada.

“Valorizar o professor é essencial”, disse Ricardo Henriques, economista e superintendente executivo do Instituto Unibanco, se referindo à necessidade do professor se enxergar como um profissional que tem de buscar progresso na carreira, e de políticas públicas que possibilitem aos professores se dedicar a apenas uma escola. Para o cientista político Fernando Abrucio, “melhor salário é importante para atrair novos talentos. A maioria dos jovens hoje em dia não quer ser professor”.

3. Escola pública é escola de pobre?

“A percepção da maioria da população é que a escola pública é de pobre, sim”, explica Luiz Felipe Pondé, filósofo, escritor e ensaísta. “Do ponto de vista do que deveria ser, claro que isto está errado. A escola pública deveria ser uma escola que você tem acesso porque você paga imposto e é um direito básico”, continua ele.

É o mesmo ponto de vista compartilhado por alguns entrevistados, que também apontaram que em um país desenvolvido a escola pública precisa ser forte e oferecer uma educação de qualidade. Para Cleuza Repulho, presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação e secretária municipal de Educação de São Bernardo do Campo, é preciso combater a herança de uma educação elitizada e incentivar a democratização de seu acesso hoje. “Antigamente tinha exame de seleção para entrar na escola pública. Mas a escola pública não deve fazer seleção. Se vamos ter um país para todos, temos que ter educação para todos”.

Para o economista e superintendente executivo do Instituto Unibanco Ricardo Henriques, o elo perdido que defasou a educação pública brasileira está nos anos 70. Enquanto nos anos 50 a realidade das escolas públicas era de proporcionar uma boa educação, “perdemos o momento da década de 70, quando não investimos na qualidade. Não fizemos a massificação com qualidade”. Desde então, segundo relata Henriques, estamos buscando “encostar” nesse parâmetro, mas em um ritmo muito mais devagar do que a fronteira vem se afastando.
Para o cientista político Fernando Abrucio, essa ideia de que escola pública é para pobre está no imaginário popular de tal forma que, quando as famílias pobres têm um pouco mais de dinheiro, elas colocam os filhos nas escolas privadas. “E as escolas privadas desses bairros muitas vezes são tão ruins quanto as públicas”, considera.

O que faz a diferença em uma escola para ter o melhor desempenho, portanto? “Permanência do professor na escola – já que a criação do vínculo faz muita diferença -, manutenção dos docentes, participação da família e empenho dos professores dentro da sala de aula”, enumera Cleuza.

4. Tem menino que não tem jeito, que não aprende?

Essa percepção não aparece na opinião da população entrevistada nem na dos especialistas. Pelo contrário: a defesa geral é que cada um aprende à sua maneira e que é preciso procurar outras maneiras de ensinar quando uma não dá certo. Mais do que isso, há outros fatores que dificultam o aprendizado do aluno: más condições estruturais da escola, envolvimento da família, espaço em casa para estudar, acesso à saúde, uma boa alimentação.

Para a presidente da União Nacional dos Dirigentes Municipais de Educação e secretária municipal de Educação de São Bernardo do Campo, Cleuza Repulho, a questão da boa alimentação é um fato. “Temos um pico de consumo da merenda na segunda e na sexta, porque a criança sabe que não vai ter o que comer em casa no fim de semana”, explica.
Ela também reforça o papel do professor nesse processo: “tem aluno que tem dificuldade de aprendizagem, mas tem também muito problema de ‘ensinagem’ nas escolas”. Isso significa, por exemplo, mudar a didática ou deixar que cada professor tenha o seu método de alfabetização, para adaptá-la a nossa grande diversidade cultural. “O melhor método é aquele que faz com que os alunos aprendam”, explica.

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